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sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Há 15 anos, o astro Michael Jackson parava o Dona Marta



Há exatamente 15 anos Michael Jackson (1958-2009) pisou pela primeira vez no Morro Santa Marta, em Botafogo, para gravar cenas do clipe de They don’t care about us (Eles não ligam para nós), com direção de Spike Lee.

O vídeo acabou virando um ícone de um novo mundo pop integrado à realidade. Longe de retratar a pobreza do local, Michael preferiu ressaltar a vista privilegiada do alto do morro e também fez questão que moradores da comunidade Santa Marta (que vive em paz, hoje, depois da instalação de uma UPP – a primeira do país) ajudassem na produção do clipe. Quem não lembra da famosa frase de abertura, em português? “Michael, eles não ligam pra gente!”.

“Fora Michael Jackson!”

Os dias que antecederam a gravação foram muito movimentados nos bastidores. Na época, a gravação recebeu duras críticas de Ronaldo Cezar Coelho, Secretário Estadual de Indústria, Comércio e Turismo do RJ, alegando a divulgação única e exclusivamente da pobreza carioca com o clipe. A preocupação com essa espetacularização da miséria devia-se também às aspirações do Rio de Janeiro de ser a cidade sede das Olimpíadas de 2004 (que acabou realizada em Atenas, na Grécia).

Até mesmo Pelé, que em 1996 era o ministro extraordinário dos Esportes, declarou-se contrário à gravação do clipe: “Falta ao cantor dar mais exemplo em sua vida pessoal“. Em entrevista ao Jornal do Brasil, Pelé se mostrou contrariado com a escolha pela favela carioca: “Por que eles só querem mostrar a nossa pobreza? Por que eles não mostram nossas praias, a Amazônia e o Pão de Açúcar?”, questionou.

No entanto, o prefeito César Maia defendia a gravação. As declarações conflituosas dos políticos levaram Spike Lee a debochar do caso: o cineasta americano afirmou que as pressões visando à proibição da gravação faziam o país parecer “uma república de bananas“. Michael, que na época enfrentava acusações de pedofilia, chegou a declarar ter desistido da viagem. Mas voltou atrás e fez história.

Luz, câmera, ação!

Naquele mês, a comunidade Santa Marta (localizada no morro Dona Marta, em Botafogo, zona sul carioca) atravessava um surto de conjuntivite. A maioria dos cerca de quatro mil moradores não possuía saneamento básico em seus barracos, com esgoto correndo a céu aberto. Não bastasse isso, ainda convivia com a violência dos conflitos entre polícia e tráfico de drogas.

A filmagem foi autorizada pelo líder do tráfico de drogas no morro, e um dos chefes do Comando Vermelho, Márcio Amaro de Oliveira, o “Marcinho VP” – que despertou o interesse do jornalista Caco Barcelos, que escreveu a sua biografia Abusado – O Dono do Morro Dona Marta. VP foi morto, na prisão, em 2003, aos 33 anos. Reza a lenda que negociação entre VP e a produção foi realizada diretamente com Spike Lee. Hoje, o pessoal do morro desconversa sobre isso.

A presença da imprensa foi proibida e a polícia também não permaneceu no interior da favela, ficando a segurança de Michael por conta dos próprios moradores. Das 180 pessoas destacadas para proteger o cantor, 40 eram de Santa Marta, e teriam recebido entre R$20 e R$50 (o salário mínimo na época era R$100). Segundo os jornais da época, o tráfico teria dado “apoio logístico“. O Jornal do Brasil deu a seguinte manchete: “Traficante coproduziu clipe“.

Michael foi simpático e interagiu com os populares entre vielas, e especialmente da laje onde se passa a maior parte do vídeo. Mesmo debaixo de seu guarda-sol, não se furtou a distribuir apertos de mão, fotos e abraços. Sorridente, deixou a melhor das imagens para o povo do septuagenário morro Dona Marta. Dona Senira, 50 anos de idade, estava no dia da gravação, e se impressionou com o fascínio que o cantor exercia nas crianças: “Ele tinha alguma coisa que mexia com as crianças. Foi um corre-corre danado atrás dele“, conta.

Making-of

A gravação foi um divisor de águas para a visibilidade da favela, conta o comerciante Luiz Paulo, de 42 anos. No dia da visita, Luiz e um grupo de amigos filmaram passo a passo os bastidores de They Don’t Care About Us. As raras imagens são vendidas até hoje, em DVD, por R$ 10. Com making-of e cenas exclusivas da chegada de helicóptero do cantor, o comerciante vai capitalizando: “Sempre tem turista comprando“, comemora.

A estudante Karina nasceu em Santa Marta 15 anos atrás, na mesma época da visita do cantor. Sincera, diz timidamente que não é fã, mas gosta de “algumas músicas dele“. Conta ainda que “o respeito ao Michael Jackson é geral”, embora, de fato, o funk prevaleça como trilha sonora local, competindo principalmente com o gênero gospel.

Espaço Michael Jackson

A rápida passagem de Michael no Dona Marta deu a visibilidade que faltava ao morro. Além de ser palco frequentemente para eventos esportivos e diversos projetos sociais, o local vem sendo usado atualmente como locação de filmes, séries e novelas. Hoje, a laje que se transformou no Espaço Michael Jackson é parada obrigatória para quem visita o Dona Marta – destoando um pouco do resto da paisagem. Foi inaugurado no dia 26 de junho de 2010 -, um dia depois do primeiro aniversário de falecimento do artista.

Fixada na mesma laje em que gravou o clipe, há uma estátua esculpida pelo cartunista carioca Ique, além de um grande painel de mosaico feito pelo artista plástico pernambucano Romero Britto. A estátua, feita em bronze, é a principal atração do local. Ique define sua obra de 180 quilos e 1,80m (mesma altura de Michael) como uma “cariscultura “.

Muitas mudanças

Quem viu Santa Marta apenas no clipe They Don’t Care About Us provavelmente ficará surpreso ao ver as mudanças positivas ocorridas nos últimos 15 anos. Há fluxo diário de turistas, que agora circulam livremente, sem se preocupar com as balas perdidas de outrora. Inclui-se aqui a nova categoria de “turistas na própria cidade” que, com a implantação da UPP, redescontem o Rio de Janeiro sem medo. O local é tranquilo, com moradores atenciosos aos visitantes: não é difícil encontrar receptividade e boas histórias.

A história de Santa Marta mudou de vez no dia 19 de dezembro de 2008, com a ocupação da primeira Unidade de Polícia Pacificadora. A UPP do estado do Rio de Janeiro deu ao morro dias visivelmente mais tranquilos. 123 policiais agora cuidam da segurança de cerca de dez mil moradores ao longo da área de 54.692 metros quadrados.

Fonte: MJ_Speechless

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